Vamos começar de trás pra frente: o desfile acaba, o público levanta pra aplaudir, espremendo ainda mais o espaço da passarela, que já era bem apertadinho. Os modelos passam então bem grudados na gente enquanto, espalhados pela plateia, os MCs Rael, Kamau, Coruja BC1 e Drik Barbosa, acompanham Emicida e Fióti, cantando juntos naquela sintonia de harmonia caótica e maravilhosa que o rap faz acontecer.

Enquanto os modelos fazem a volta final em direção ao camarim, vemos o brilho no olho, dá para sentir a energia que eles estão sentindo e, especialmente nos modelos negros, notamos o orgulho que vira um manto de luz sobre seus corpos. O público fica extasiado porque é uma troca de energia grande, rápida e genuína.

Num encontro com Emicida no camarim, ele diz que não se surpreende com o sucesso da Lab. “O Brasil é desigual em toda sua estrutura, mas muitos hábitos que fortalecem isso são tomados por vício mais do que por consciência. De tempos em tempos, tem que aparecer pessoas que chegam e fazem diferente”.

Esse é apenas o terceiro desfile da Lab no SPFW, marca criada pelos irmãos Emicida e Evandro Fióti.  Em poucas edições, eles se tornaram uma sensação ao mostrar uma moda em que ecoa a voz das ruas e da galera que acompanha os meninos em suas incursões pela cultura brasileira. Há uma real diversidade na passarela que é verdadeiramente celebrada. Entre os modelos, amigos da dupla com seus corpos gordos ou magros, altos ou baixos também desfilam. MC Carol entrou com uma coroa na cabeça, levando aplausos e gritos de rainha.

Se nas duas outras apresentações, a marca falou de passado e herança, desta vez traz uma reflexão sobre o futuro. “E qual o nosso olhar estético do futuro? Como trazemos isso pra história da Lab?”, questiona Emicida, respondendo no instante seguinte: “Pensamos então em liberdade, em alcançar novos horizontes e a forma metafórica de sugerir isso são os pássaros, o bando voando”. A coleção então, foi batizada de Avuá.

Através dos pássaros, a equipe chegou nas penas, que por sua vez, foram uma das primeiras ferramentas de escrita. Pronto, o ciclo estava feito: escrita, canto, vôo. “Em cima desses pilares nós chegamos ao coração das pessoas”.

Tudo isso é traduzido no streetwear que a Lab vem fazendo, com camisetas, calças, jaquetas, casacos corta-vento, vestidos e peças oversized em materiais leves e esportivos, como o nylon, a malha e o moletinho. Estampas de pássaros, penas, logos e manuscritos aparecem de diversas formas. “Fizemos uma pesquisa de imagens gigante. Fiquei buscando pássaro por um tempão, fui até a casa do caralho!” (risos) E desses passarinhos também veio a cartela de cores, diluída especialmente em azuis.

Logo mais o circuito se completa quando as roupas chegam ao e-commerce da Lab, a partir de setembro, com grade de tamanhos que vai até o tamanho 58.

Amor, música e transformação. Foram essas as palavras que eles ouviram como representantes da Lab em uma convenção que fizeram quando se sentiram perdidos quanto ao rumo da marca. Com esses três pilares na base do trabalho, esse passarinho vai se deparar com longos voos. (CY)

DIREÇÃO CRIATIVA
Emicida

COORDENAÇÃO GERAL
Emicida e Evandro Fióti

STYLING
Paulo Martinez

BELEZA
Marcos Costa

TRILHA
Emicida e DJ Duh

MCS
Rael, Fióti, Drik Barbosa, Kamau e Coruja BC1

Fotografia: Agência Fotosite / Marcelo Soubhia / Sergio Caddah / Zé Takahashi